sexta-feira, 6 de março de 2015

Últimas anotações

Minha vista encontra-se embaçada - ou talvez embaraçada, o fato é que mal sei pra onde devo olhar, nem mesmo pra onde quero olhar, eu poderia culpar as lentes sujas ou talvez a neblina deste lugar, que nem mesmo sei o nome, mas antes de poder proferir qualquer palavra uma lágrima me entregou - meus olhos estavam inundados - como de costume. Minha audição estava perfeita, e eu não ouvia nem minha própria respiração. Estaria, eu, sozinho? Ou minha companhia era silenciosa? Tenho o direito de chamar cadáveres de companhia, afinal, a solidão é facilmente contornada por conceitos pessoais. No meio de todo aquele silêncio eterno, eu jurava ouvir um corvo (que não gritava nevermore, felizmente), que eu mal sabia se realmente era um corvo (poderia ser um urubu, um abutre, mas deixarei como corvo por questões literárias mal resolvidas), mas seus sons me amedrontavam, realmente uma cena curiosa, meu medo pelo desconhecido tornou-se maior que meu medo da sociedade - afinal eu não pertencia a mesma, meu melhor amigo era um cadáver, que coincidentemente eu havia acabado de matar - e assim eu permanecia imóvel, esperando a alma de meu amigo transcender. Fiquei horas em frente ao morto, até perceber-me sonolento. Matar pessoas não liberava a mesma adrenalina que outrora foi liberada. Agora, a morte deste ser significou minha morte, a única coisa que mantinha-me vivo não existe mais - considero-me agora corpo, puramente carne, como todo resto dos homens. Minha consciência parecia calar-se aos poucos. Meus olhos começaram a pesar, mas resisti bravamente, estava a espera do corvo e seus beijos - lentos e dolorosos. Finalmente o corvo chegara ao meu corpo, para, enfim, transformar-me em corvo também.

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